16.9.13

CRÔNICA DE VINÍCIUS GREGÓRIO: "AINDA TENHO FÉ NA FORÇA DA CULTURA"

Samuel Aragão declamando
Sexta-feira passada [esta crônica é de 08 de setembro/ nota do editor] me encontrei, aqui em Recife, com quatro poetas da melhor qualidade poética e humana possível: Clécio Rimas, Zé Adalberto, Genildo Santana e Alexandre Morais. Estes três últimos estavam de passagem pra São Paulo, onde farão uma turnê poética, durante 15 dias, divulgando a cultura pajeuzeira. 

Neste encontro saiu de tudo: conversa, piada e até verso de improviso. Voltei pra casa feliz da vida, pois vivi por um momento “Numa ilha de Sertão cercada de capital por todos os lados”. Pra minha tristeza, quando eu chego ao meu prédio, no saguão, deparo-me com três meninas (de 10, 8 e 6 anos de idade) dançando uma música, que ouviam no celular, cantada por uma cantora gasguita, na qual eu só conseguia identificar um trecho que repetia constantemente a frase “Cola a bunda no chão”, e as CRIANÇAS, dançando como “gente” grande, atendiam a isso e a outros comandos que eu não entendia quais eram, mas que eram tão degradantes quanto. 

Esta cena foi o bastante pra me trazer de volta à realidade e me deixar triste. É claro que elas faziam aquilo inocentemente, mas o que me deixa triste é saber que logo, logo saberão o sentido daquilo e permanecerão achando bonito e normal, enquanto tanta cultura, que não denigre a imagem do ser humano, está disponível e sendo desperdiçada. Com esta cena, perdi, por um instante a FÉ NA FORÇA DA CULTURA. Mas, felizmente, vem o outro lado da história. 

Assim que entrei em casa, abri meu facebook e vi uma poesia feita em minha homenagem por um poeta, de Tuparetama-PE, de apenas 9 anos de idade (mesma idade das meninas) chamado Samuel Aragão. Samuel é um presente que Deus deu ao Pajeú. Quem teve a oportunidade de vê-lo declamar sabe o que estou falando. Esta criança tem uma presença de palco explicada somente por Deus e pela FORÇA DA CULTURA. Eu costumo dizer que ele é um POETINHA ILUMINADO, pois consegue prender a atenção de qualquer público, não por ser uma “criancinha bonitinha” que gosta de poesia, mas por declamar como poucos marmanjos declamam. E aqui está o presente que recebi deste poetinha iluminado: 

“Vinícius, és um poeta 
Que orgulha o teu terreiro. 
Eu copio dos melhores, 
Entre eles és o primeiro. 
Parabéns este poeta 
Do nordeste brasileiro!” 

E abaixo ele completou dizendo: 
“Se sentindo achando Vinícius o melhor” 

Tem coisa mais gratificante de se ver? Minha emoção foi enorme... É claro que me senti honrado por saber que sirvo de referência pra crianças como Samuel, pois ninguém é isento de vaidade. Mas o que me deixa mais feliz é o que está por trás desta sextilha: a certeza da renovação poética do Pajeú; a certeza de que vale a pena produzir cultura; e, principalmente, a constatação de que ainda existem pais que sabem da importância da cultura na formação do caráter de um filho, como é o caso dos pais de Samuel. Samuel, muito obrigado por ter me dado de volta a FÉ NA FORÇA DA CULTURA. 


Vinícius é poeta de São José do Egito-PE. 
Atualmente mora em Recife.

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