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2.9.13

CRÔNICA | Sobre a surpresa da morte, a brevidade da vida e a saudade de Dona Lourdes


De tão acostumados com as pancadas e os sustos recebidos no decorrer dos anos, (quase) deixamos de acreditar na fragilidade da vida. Nos iludimos que a vida é forte, que sobreviveremos a tudo e que longos, ainda, serão os anos pela frente. Mas eis que de repente, não mais que de repente como disse o poeta, a vida de alguém próximo a nós se despede definitivamente. É a morte que chega trazendo a carta de alforria desta sentença que estamos a cumprir. E a morte deste alguém querido nos sacode do torpor e pergunta: E aí, tua vida como está? Que tens feito dos teus dias? Como tens utilizado para teu benefício e dos outros, o tesouro das horas que ganhas todos os dias? 

Penso nisto enquanto lamento as recentes mortes de tantos conterrâneos, nos últimos meses. Somente nesta semana, duas senhoras, vítimas de infarto ou AVC (não cheguei a me certificar da causa). Uma delas, tia dos meus amigos Dennis e Cecéu. A outra, mãe de colegas de trabalho na prefeitura e participante do grupo de convivência da 3ª idade, do qual sou voluntário, Dona Lourdes. É sobre Dona Lourdes que gostaria de escrever, uma homenagem, singela embora, pelo que ela representa como mãe e sertaneja.  Falando de Dona Lourdes estarei falando também das outras mães que se foram, cedo demais, porque todas as mães partem muito cedo independente da idade que possuam.

Não fui tão próximo de Dona Lourdes nem cheguei a conviver com ela tempo maior além dos encontros no grupo de 3ª idade que ela freqüentava nem tão regularmente. Mas a falta de intimidade com Dona Lourdes não foi empecilho, jamais, para minha admiração por sua pessoa. Assim como eu, acredito que não há quem não admire Dona Lourdes em Tuparetama, essa digna representante da mulher sertaneja que exibe em sua figura a mistura favorável de índios, negros e brancos, resultando nesses seres ativos, altivos e resistentes que somos todos nós . 

Agricultora, esposa de vaqueiro, mãe de vaqueiros e professoras. Matriarca de uma família tanto grande quanto honrada, honesta e cordial. Dona Lourdes corajosa, trabalhadora, companheira. Dona Lourdes engraçada, bem humorada, boa de conversa. Dona Lourdes hospitaleira, acolhedora, boa vizinha, boa amiga, boa comadre. Dona Lourdes imensa, gigante, inquebrantável diante dos açoites da vida, das dificuldades financeiras de toda família sertaneja que um dia ou outro levara suas criações e suas economias ou ainda resistindo mais tenazmente diante de provações maiores, como a morte de filhos, filhas e do marido. E depois de tudo, acima de tudo, com o conforto que somente a fé, o tempo e o apoio da família nos dão, lá estava novamente sorrindo pra vida, de cabeça erguida e com o coração firme e forte. Dançando forró nos encontros da 3ª idade, proseando com as vizinhas na calçada, tomando uma lapada de aguardente com os amigos nos almoços e nos encontros da associação de sua comunidade rural...

E aí, não mais que de repente, o coração dessa grande sertaneja acostumado a toda sorte de dor, fraqueja e para. É o segundo do adeus. Enquanto se preparava para ir ao encontro do grupo da 3ª idade de Tuparetama, onde comemoraria com outras companheiras e companheiros aniversariantes de agosto mais um ano de vida!

E a morte deste alguém querido nos sacode do torpor e pergunta: E aí, tua vida como está? Que tens feito dos teus dias? Como tens utilizado para teu benefício e dos outros, o tesouro das horas que ganhas todos os dias?

Tárcio Oliveira


2 comentários:

Lú Figueirôa Neri disse...

Nossa que Linda crônica, quem me dera um dia ao longe ser Lembrada dessa forma tão calorosa e tão carinhosa, posto que a nossa Vida nada mais é que um emaranhado de Lembranças Saudades das minhas férias quando pequena ai em Tuparetama, no sitio na caiçara amo o Sertão, Parabéns Tárcio Oliveira pelo Blog...

Anderson Rodrigues disse...

Tárcio, que linda homenagem a esta mãe guerreira, provadora de tantos e tantos descasos e angústias. Dona Loudes, uma lenda, que merece ser sempre lembrada e homenageada. Descança em paz "Lurdinha"!

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