¹

24.1.14

CRÔNICA DA SEMANA - "BARULHO"

     

     Contam que o Senhor resolveu enviar novamente seus anjos à terra para observarem como tem se comportado a criação, mais especificamente a humanidade. É que Deus sendo onisciente sempre soube da natureza incorrigível dos seus filhinhos terrestres, mas romântico ao extremo como ao extremo são todas as qualidades divinas, alimenta a fantasia de que nem tudo se perca nesse seu projeto de criaturas predestinadas ao Céu.  E de fato, aqui e acolá desde que Adão e Eva acordaram no seu primeiro sopro, alguns santos servem de conforto contra a iminente decepção divina com o homem.

     Como estava a iniciar esta crônica, eis que há alguns poucos anos atrás – coisa bem recente – o Senhor reuniu seus enviados para ouvir os relatos de observação nas suas visitas a todos os pontos do planeta onde houvesse um aglomerado de gente, um arruado qualquer.  Fez mais o Senhor, em tempos de comunicação global e redes sociais, convocou em sonhos um blogueiro de cada lugar desses visitados para ouvir e depois “compartilhar” os relatos.  Pois é sabido que hoje em dia onde há gente, há também mosquito, cachorro e blogueiro e este último tem pelo menos a serventia de eficiente difusor.

     A reunião não se deu com todos ao mesmo tempo, digo isto antes que você me pergunte. Seria muita gente e muita informação simultânea, mesmo sendo a sala do trono do Senhor imensa em tamanho e em tecnologia. Cada anjo mensageiro teve seu momento de relato a sós com Deus e com o blogueiro, que ficou lá num canto só ouvindo e anotando tudo – nisto alguns tiveram sérias dificuldades, acostumados que estão a copiar e colar – e formatando o texto que transmitiria aos seus conterrâneos a lição a ser retirada daquela visitação determinada pelo Divino Criador.

     Então dito tudo isto peço perdão aos leitores de outras localidades, mas como puderam compreender até aqui, só tive acesso às informações de Tuparetama. Digo mais, não fui sequer o blogueiro  escolhido para a audiência. Não vou contar quem foi o predestinado nem como tive acesso às informações, isto faz parte do sigilo de fontes de todo blogueiro, só Deus sabe o que se deu entre nós (eu e o blogueiro) e se Ele permite que eu reconte aqui no blog o ocorrido, quem sou eu para deixar passar esta oportunidade! 

     A cada mensageiro, de cada lugar visitado, perguntou o Senhor: O que de pior observaste ali? E o anjo repórter passava a narrar, de modo breve e quase poético, como soa bem nas conversas celestiais.  Disse mais ou menos assim, sobre a velha Bom Jesus do Pajeú, nossa Tuparetama:

“Barulho, Ó Pai, é o que de pior encontrei nesse lugar.
Perderam as pessoas o caminho do silêncio e da contemplação.  Não se pode esperar nada de bom onde impera uma guerra diária, e sem tréguas, de ruídos e vozes estridentes.

Estou certo, Senhor misericordioso, que os grandes males dessa terra advém do barulho que aflige toda gente, toda alma, toda idéia, todo pensamento e toda tentativa de boa ação.  Barulho que quando não tolhe, atrapalha qualquer tentativa de progresso pessoal ou social.

Barulho de vozes: Vazias de sentido, de coerência, de ciência, de paciência e de tolerância.  E observa-se, Senhor, que quanto mais dessas notas possuem as vezes, mais estridentes e demoradas elas soam, na ânsia de convencer pelo grito ou pela altura, já que carecem de conteúdo.

Barulho de gestos:  Barulho de músculos e nervos tensos sobre os ossos, pois os beijos, abraços e afetos cada vez mais se guardam em bolsos das roupas ou nos braços cruzados.  Quase todos se tratam por estranhos, de longe, sem afetos – excetos entre os apaixonados ou entre aqueles com interesses pessoais. Há menos filhos beijando seus pais, há menos irmãos de mãos dadas nas ruas, há menos casais amando suas diferenças e superando seus defeitos com afetos.  O corpo dói e a dor do corpo produz um barulho mortal que fere a alma da gente.

Barulho de pensamentos: Pensa-se mal e pensa-se o mau de quase tudo e de quase todos. Nisso nem as preces estão ajudando, pois que se reza em troca de um favor, de uma ajuda ou de uma disputa que favoreça a si mesmo em detrimento do próximo. E não erro em afirmar, Senhor, que o barulho das mentes doentes é como uma ferida no ouvido da gente.

Barulho dos devotos: Sim, meu Pai, embora muitos afirmem ser seguidores do Teu Nome e dos Teus Ensinamentos, parece-me que escutam muito mais o apelo do Sistema em que vivem mergulhados que o apelo dos Evangelhos.  E nisso vivem mergulhados, em cantarem e orarem a plenos pulmões e pleno volume dos seus equipamentos, enquanto aguardam benefícios como sucesso profissional e riqueza capital.  É um barulho que incomoda e aliena, mas isso talvez façam menos por maldade que por ignorância. São como crianças numa sala do maternal gritando pela atenção da recreadora.

Indagou o Senhor: Encontraste entre a gente visitada alguém que pudesse servir de exemplo?

E respondeu o mensageiro: Alguns poucos, Senhor. Lembro-me muito vivamente do silêncio dourado de um irmão que passa a maior parte do seu tempo num quartinho humilde do Lar de Idosos da cidade.  Sua mente vagueia, quase esquecida de tudo, distante do tempo, das vozes e do barulho que porventura chegam até aquela  casa simples.  No silêncio, ressoa seu coração frágil que pulsa lentamente e que se alegra com a mão anônima que lhe dá alimento, banho e remédios.  Acredita ser de uma filha ou filho, mas estes lhe abandonaram há tempos.  Não importa, e nisso seu silêncio é mais belo. É a voz imensa do amor, que perdoa e releva todo sofrimento. No silêncio essa criatura busca a ti, Senhor, e em suas preces já quase infantis, pede pela saúde dos seus filhos.

     E Deus assentiu, balançando a cabeça positivamente". 

[]

Tárcio Oliveira
Tuparetama, 20 de janeiro de 2014



2 comentários:

José honorato da silva junior Honorato disse...

Quando todo barulho incomodar,escutemos o silêncio,que pode ser ensurdecedor.
O barulho que realmente nos incomoda é aquele que não queremos escutar.

EDIRALDO JOSE DE OLIVEIRA disse...

Belo texto. Merece reflexão.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...