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13.8.14

AS URNAS FICAM ÓRFÃS DO VERDE OLHAR DA ESPERANÇA - O tocante texto da poeta Mariana Teles sobre a morte de Eduardo Campos

Não fui ás ruas pelo falecimento de Getúlio, não vesti luto pela morte inesperada de Tancredo, muito menos acompanhei o cortejo que levava o corpo de Juscelino. Coube a minha geração acompanhar cada episódio desse pelas páginas dos livros de história e as privilegiadas memórias dos avós. Agora, cabe a essa mesma geração, distante cronologicamente de tantos outros fatos, assistir consternada o aborto de um sonho, o enterro de uma esperança e uma emboscada do destino. 

Eduardo nunca gostou do óbvio, detestava o comodismo e era genial no modo como ousava. Não tinha medo da consequência das suas escolhas nem das intuições do seu coração. Discurso forte, poético até na prosa, esperançoso, gentil e convincente. A luz das tribunas. A fé dos palanques. A esperança das multidões. Poucos políticos reúnem espírito público, carisma e senso administrativo. Eduardo era um mestre nos três quesitos. Se Arraes foi grande porque foi maior que a sua causa e além do seu estado, Eduardo foi maior ainda porque morreu sonhando com os melhores dias para a pátria, despencou do maior vôo da sua história - aquele que não admitia pouso. 

O verde dos seus olhos permanecerá nos Campos da nossa Zona da Mata e nos vales do Agreste pernambucano, a tônica forte dos seus discursos rondará a sequidão do Pajeú de Antonio Marinho e ocupará os ecos da Academia Pernambucana de Letras, ocupando o leito de Maximiano Campos. Pernambuco jamais foi tão calado como ficou hoje, Recife nunca tinha ficado tão escura como está agora. 

Eduardo foi perseguidor do seu sonho e dono da sua vaidade, de fazer mais e melhor. Não se escolhe a forma da morte, mas assim como Ulysses Guimarães, pai da nossa constituição cidadã, Eduardo imitou as aves e os gênios, se juntou a eles e morreu no ar. Feliz foi Pernambuco por ter tido um gestor sensível, generoso, visionário e altamente talentoso. Triste é para o Brasil, sepultar a esperança da proximidade dos dias melhores e dos ideais mais justos. 

Se a política perde um talento, a humanidade sepulta um ser humano, a história trata de eternizar quem morreu já sendo maior que ela. Nunca tive dúvida que o mundo pertence aos grandes sonhos e a história aos grandes homens, por isso mesmo Eduardo foi do mundo e é da história. Na "Piedade" do pranto que começa com uma "viagem" nada "boa", alcançamos o nordeste e nos irmanamos com a do Brasil que antes de conhecer o talento do sempre governador da Nova Roma, perde um guerreiro disposto a todas as trincheiras que envolvessem melhores dias para a nação. 

Difícil é tratar dos fatos sem dimensionar a amplitude da dor. Impossível é compreender os desígnios de Deus e improvável é não lamentar a queda em vôo livre de milhões de sonhos brasileiros, na mais patriota de todas as convicções. 

Na foto, Eduardo e meu pai na despedida de Lula, como presidente em 2010. O marco zero da cidade do Recife ouvia e aplaudia os discursos e as saudações encomendadas pelo então governador, na mais autêntica e maior manifestação cultural, a poesia. Foi nesse dia que eu, ainda "encadeada" com os holofotes naturais do Recife, ouvia um governador falar de sonhos e chorar com versos. 

Pernambuco sepulta um filho no ventre da imortalidade, o Brasil aborta uma esperança, uma geração perde o mais forte nome, e as urnas ficam órfãs do verde olhar da esperança. 

Tuparetama- Recife, 13 de agosto de 2014

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