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28.12.14

O NATAL DE DONA DELFINA MARQUES E SEUS PRESÉPIOS ENCANTADOS



"MENINO EU VI, O PRESÉPIO ENCANTADO DE DONA DELFINA"  

Os pés descalços subiam e desciam correndo a ladeira da Rua Bom Jesus. Nem a aspereza dos paralelepípedos do antigo calçamento, nem a ameaça de algum espinho das algarobeiras da pracinha da rua nos assustavam. Éramos 4 ou 5 amigos brincando de “rendido”, “toca” “seu Rei mandou...” com os chinelos de borracha enfiados nos antebraços, porque correr de chinelo não dava velocidade. 

A certa altura do rodízio de brincadeiras paramos suados, sujos, ofegantes e curiosos, para olhar o movimento de velas e cantigas que vinha de uma das casinhas estreitas da Rua Bom Jesus. Na algarobeira em frente, uma vara de agave sobressaindo-se da copa ostentava bandeira de tecido bordada e era ela o único “enfeite” da rua naquele dezembro de mil novecentos e setenta e tantos. Era, talvez, o único enfeite em toda a cidade. 

Na sala da casa criancinhas vestidas de anjinhos com asas de papelão e papel crepom ladeavam a lapinha montada sobre uma mesa, numa das laterais da parede. O presépio enchia nossos olhos curiosos de criança e à noite parecia mais belo e vivaz, resplandecendo velas e lâmpadas nos detalhes de areia brilhante, nas peças de vidro e naquela mistura generosa, quase barroca, de figuras, estampas e texturas trabalhadas e montadas pacientemente pela moradora, Dona Delfina. 

Nós os meninos traquinos e sujos de tanto correr na rua nos esprememos em frente a porta aberta da casa para ver melhor. De dentro, algumas senhoras que rezavam nos olharam com aquele olhar nada piedoso de repreensão. Incomodado um dos colegas nos chamou, “vamossimbora voltar pra brincadeira”. Eu não queria ir, queria ficar ali tentando apreender todas as imagens. Mas voltamos a correr na rua larga. Um dos colegas lembrou-se dos tostões que ganhara do padrinho naquele dia e disse num descuido de generosidade: “Bora lá embaixo no hotel de Dona Ana comer doce!” Fomos voando. 

Não guardo lembrança de beleza natalina maior que o presépio de Dona Delfina, nem ceia de natal mais deliciosa do que aquele pirex do doce de leite de Ana de Chico Fernandes arrematado com um copo de água fria do pote de barro. Porque quanto mais envelheço e aprendo, mais me dou conta de que a beleza da vida está nas coisas simples e amorosas. 

Tantos anos depois daqueles dezembros de minha infância, a Prefeitura da cidade homenageia a memória de Dona Delfina e seu presépio encantado na decoração natalina. É uma homenagem simplória, limitada, considerando-se a quantidade e qualidade dos enfeites distribuídos em alguns locais públicos. Esta observação não desmerece a homenageada nem a intenção da prefeitura e sua secretaria de Cultura, idealizadora da homenagem e da decoração. Faltam-se recursos para uma ornamentação grandiosa mas sobra boa vontade, e não é essa, afinal, a virtude que caracteriza o espírito do natal? 

Ao escolher um tema e uma figura histórica da comunidade para homenagear, a exemplo de Datargnam Felipe e seu pastoril, no natal do ano passado, e de Dona Delfina neste ano, mais do que ostentar luxo e habilidades artísticas o que se pretende, afirmo eu, é jogar luzes sobre a importância do trabalho e da memória dessa pessoa para a nossa comunidade, para a nossa identidade cultural. Que bom que ainda temos Datargnam e seu pastoril, que bom que tivemos Dona Delfina e seus presépios, que bom que podemos de alguma forma despertar a curiosidade entre as crianças e jovens de hoje e entre os adultos de ontem a história dessa artesã centenária e humilde que sem qualquer outra ambição senão louvar e lembrar a história do nascimento de Jesus nos ensinou com sua arte o sentido do verdadeiro natal. 

Nesses tempos tumultuados em que vivemos, conduzidos qual fantoches para uma farra permanente de consumo-descarte e adestrados para uma cega necessidade de aparência a despeito de consistência, nos assusta como abraça-se e aceita-se tão naturalmente a descaracterização cultural do nosso natal (e vemos cidades sertanejas decoradas com bonecos de neve, papai-noel em trenós puxados por renas...) e o esvaziamento do significado do natal. Não mais o acontecimento extraordinário da encarnação de Deus entre os homens, mas o peru na mesa, a cidra na taça, o presente trocado, a farra entre colegas, o cordão de leds na porta... 

Fecho os olhos e evoco na memória o dia seguinte daquela noite de minha infância, quando ia pra Escola Ernesto e no trajeto, em frente a porta aberta da casa de Dona Delfina, me demorei olhando suas mãos habilidosas arrumando as figuras de seu presépio, tal qual deve ter feito Francisco de Assis, o santo, centenas de anos antes, quando teve a ideia de celebrar o natal recriando a cena do nascimento do salvador. Sem recursos materiais extraordinários, só com o talento, a fé, o sentimento amoroso e os materiais do cotidiano, do passado eles nos lembram a simplicidade e pobreza do menino Jesus cuja real beleza só se consegue enxergar com os olhos da alma, esses olhos que não devemos deixar o materialismo dos nossos dias corromperem. 

[ Tárcio Oliveira /  Tuparetama / Dezembro de 2014]

Abaixo, slide com fotos dos trabalhos de confecção e montagem da decoração de natal de Tuparetama e das pessoas envolvidas/ colaboradores:
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