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6.4.15

BEM-VINDO(A) DE VOLTA À IDADE MÉDIA. IGREJA E SESC CENSURARAM PAIXÃO DE CRISTO DE ARCOVERDE

Foto: Thiago Henrique/ Divulgação

O acontecimento mais bizarro (para usar um adjetivo leve) da Semana Santa deste ano aconteceu na cidade de Arcoverde, aqui no sertão de Pernambuco e nos brindou com uma indigesta volta aos obscuros tempos da Idade Média. Em plena sexta-feira da Paixão, enquanto cristãos relembravam a condenação e agonia de Jesus Cristo no calvário, dois padres da cidade Arcoverde pediam a "cabeça" dos jovens atores do espetáculo Horizonte da Paixão e o SESC do estado, patrocinador do evento, tal qual um Pilatos apressado lavou as mãos e condenou a cena teatral da cidade à cruz da censura.

Como foi mesmo que aconteceu este pecado?

Fotomontagem no Facebook/ Divulgação
Após 15 anos sendo apresentado na cidade de Arcoverde, o Espetáculo Horizonte da Paixão que reconta os últimos dias da vida de Cristo, com a participação  do grupo de teatro do SESC Arcoverde, dos alunos da Educação de Jovens e Adultos e do grupo da Terceira Idade Novo Horizonte foi suspenso. O cancelamento das apresentações seu deu após cenas do espetáculo como a "Santa Ceia", a "Tentação do Deserto" e a “Crucificação" terem gerado polêmica na cidade. Os Padres Adilson Simões e Airton Freire foram a uma rádio local e convocaram os cristãos a não comparecerem nas apresentações como forma de protesto pelas cenas que segundo eles vinham sendo apresentadas de forma desordenada (?) ,absurda (?) e sacrílica (!!).

Ouça o protesto do padre na rádio de Arcoverde


No pronunciamento do padre ele admite que não assistiu o espetáculo (!!!) mas faz as críticas baseado em comentários de pessoas de sua confiança.  Não questiono a confiança dos espiões do padre, mas me despertam boas risadas o nível de interpretação e de contextualização dos evangelhos que tais espiões alcançam. O fato é que a mancha da censura compromete definitivamente a continuidade do espetáculo nos próximos anos. Como disse Millor Fernandes, "O pior da censura é que ela não só cala as poucas vozes dissidentes, mas desperta nas outras um extraordinário desejo de subserviência". E subserviência religiosa já nos mostraram 2 mil anos de história de quantos males são capazes.  Contra o absurdo da CENSURA, artistas, amigos, intelectuais e cidadãos protestaram utilizando imagens com o nome Horizonte da Censura e fotos com a boca e olhos tapados em seus perfis nas redes sociais.  ( Confira abaixo mosaico fotográfico com algumas das fotos postadas).




A tentativa do SESC de justificar o injustificável

Após censurar a apresentação do espetáculo, cancelando-o, a direção do SESC Pernambuco, a direção regional e a direção local emitiram uma nota a cidade de Arcoverde. Confira a nota na íntegra: 

À Comunidade de Arcoverde "A direção do SESC Pernambuco, entidade laica e privada sem qualquer vinculação política ou religiosa, informa à comunidade de Arcoverde e região, que o espetáculo Horizontes da Paixão, promovido pelo SESC há 15 anos, tem a natureza puramente artística. Por outro lado, a Direção do SESC/PE com a intenção de evitar qualquer interpretação, desrespeito e intolerância às crenças e valores éticos e morais do cristianismo, e à forte tradição da celebração da Semana Santa, profundamente arraigada na cultural do povo brasileiro, determina a suspensão do espetáculo Horizontes da Paixão, hoje e amanhã, dias 03 e 04 de abril de 2015". Assinam: Josias Albuquerque Diretor do SESC/PE - Antônio Inocêncio de Lima - Diretor Regional do SESC/PE e Andrea Marquim - Gerente do SESC Arcoverde.



Como era o espetáculo HORIZONTE DA PAIXÃO? 


O espetáculo é Horizonte da Paixão faz parte do calendário artístico e cultural da semana santa em Pernambuco. Encenado há 15 anos por artistas de Arcoverde, transforma a cidade em palco onde se desenrolam os últimos dias da vida de Cristo.

São montadas 40 cenas, todas com novidades a cada ano e mais de 150 pessoas no elenco, sendo considerada a maior do Sertão do Moxotó.

O Horizonte da Paixão tem início no Pátio do Cecora, e passa em via crucis pela Avenida Zeferino Galvão, e termina na antiga Estação Ferroviária. São cinco palcos distribuídos em um percurso de dois quilômetros.

A apresentação acontece ao ar livre e pode ser acompanhada gratuitamente. Estima-se um público aproximado de seis mil pessoas em cada um dos três dias de espetáculo. A direção é de Claudiney Mendes e a produção geral de Miro Carvalho.


Na tarde do domingo (05) o Movimento Cultural de Arcoverde publicou nas redes sociais uma Carta aberta em resposta ao cancelamento do espetáculo “Horizonte da Paixão”. Confira a carta na íntegra: 

“Horizonte da Paixão”,espetáculo artístico e não catequético, com liberdade poética não para reescrever a história mas para interpretar e aproximá-la do público, independente de credos, ideologia política, raça, etc. O Movimento Cultural sempre esteve aberto ao diálogo com todos os líderes religiosos da região, embora não tenhamos sido procurados antes, durante ou depois do espetáculo nestes 15 anos de realização. A história representada não possui direitos autorais sendo assim domínio público e podendo ser interpretada do ponto de vista dos que a fazem, observando os valores morais e éticos da sociedade e o respeito às transformações desses valores. 

Sempre existiu, acima de tudo, o respeito às crenças e signos religiosos. A versão do espetáculo para 2015 segue o conceito dos anos anteriores, que é aproximar a história do público, sobretudo os jovens, trazendo uma reflexão para a atualidade. A Arte permite a reinterpretação de signos não se detendo a doutrinas e dogmas religiosos. Ainda assim jamais foi nossa intenção ferir essas simbologias. Quando a montagem propõe a reinterpretação dessa história confia na inteligência e discernimento do público, sem provocar a fé, apenas suscitar questionamentos do mundo atual, sabendo que a fé não está diretamente ligada a conceitos estéticos. Não cabe à Arte julgar ou alterar a fé. 

O espetáculo vem propondo desde seu surgimento cenas contemporâneas como a participação de jovens reeducandos da FUNASE (Fundação de Atendimento Sócio-educativo) e modificando seus cenários e figurinos. Em torno da apresentação de 2015, criou-se um burburinho com interpretações do espetáculo por líderes religiosos que assumidamente não o viram, se utilizando de discursos de terceiros. Numa demonstração de abuso do poder de influência em meios de comunicação de massa, incitaram inverdades, revoltas, boicote e intolerância

A partir desse discurso gerou-se uma série de ações de represálias, agressões verbais e ameaças de protestos e à integridade física dos integrantes do espetáculo, causando mal-estar entre a comunidade religiosa e a comunidade artística. Vale frisar que a comunidade artística também é integrada por pessoas religiosas. O Sesc Pernambuco, responsável pela realização deste projeto, optou pelo cancelamento de forma arbitrária, sem consulta prévia, não levando em consideração a opinião dos artistas envolvidos. 

Repudiamos a atitude e os termos utilizados pelo senhor Adilson Simões ao dizer que o espetáculo foi feito de forma “desonerada”, “absurda”, “sacrílica”, “abortiva” e “feminista”. Em nenhum momento existe menção ou apologia ao aborto. Em relação ao feminismo, entendemos o momento de respeitar o ser humano independente de gêneros. De acordo com a Constituição Federal Brasileira em seu artigo 5 º, parágrafo 1º “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos desta Constituição”. Repudiamos que em pleno século XXI um espetáculo seja censurado em razão da divergência de opiniões, que os artistas sofram retaliação da sociedade por sua visão artística, que seja desrespeitado todo o tempo dedicado ao processo de produção, planejamento, criação e ensaios. Repudiamos que o público que há tantos anos acompanha o projeto “Horizonte da Paixão” sejam lesados e voltem para casa por não poder apreciar o espetáculo que já estava pronto. Repudiamos os prejuízos econômicos, turísticos, culturais e sociais advindos da extinção deste projeto e por fim, repudiamos o retrocesso que fere a sociedade e cultura arcoverdense e principalmente a Constituição Federal, que reza no seu artigo 5º, parágrafo 9: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Movimento Cultural de Arcoverde.


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