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4.3.17

A VIDA É TREM BALA, PARCEIRO. E A GENTE É SÓ PASSAGEIRO PRESTES A PARTIR *


_ Você já percebeu que o nome de Tuparetama não aparece no GPS do celular nem nas localizações do Google Maps em alguns lugares da cidade como o Terminal Rodoviário e meu bairro? 

Chico fazia essa observação com sincera revolta. “Como pode? Tá errado, é nossa cidade e aparece como se fosse São José do Egito”. Ele me disse que já tinha enviado e-mail para o IBGE, o Google e o Governo do Estado para que corrigissem a falha. Mas que até o momento nada de respostas. 

_ Chico, talvez isso tenha a ver com o satélite e o sistema do Google. Como essa área da cidade fica no limite com o território do município de São José do Egito é provável que daí surja esse conflito de localização. 

Mas Chico não se conformava com a mutilação geográfica de sua cidade. "Tem que ver isso na Prefeitura. Talvez através do prefeito seja mais fácil solicitar e ter uma correção desse problema. Eu já falei com o prefeito e com o pessoal da prefeitura pra ver. É uma vergonha pra gente: um morador ou visitante da cidade vai fazer a busca no GPS e aqui aparece como se pertencesse a outro lugar". 

Essa conversa se deu em meados do ano passado e sirvo-me dela para ilustrar o profundo sentimento de cidadão apaixonado pela cidade de Tuparetama que foi nosso amigo Chico, o conhecido Francisco da Rodoviária. 

O grande coração de Chico parou na terça-feira de carnaval antecipando uma quaresma de tristeza e dor para a família e os amigos. Coração calejado de menino pobre do sertão, da zona rural, que nunca se dobrou diante das adversidades. Passara, no decorrer de quase vinte anos, por duas cirurgias e aguardava uma terceira. Ainda jovem e lutador, Chico acreditava na vida e na sua recuperação. Assim era – cheio de fé e otimismo- o companheiro da professora Sandrinha, a bela parceira que contribuiu para moldar um Francisco mais adulto, maduro, equilibrado. Juntos formaram um casal admirável. 

Empreendedor e funcionário exemplar, responsável e atencioso, Chico deixa esse legado de bons serviços prestados e de máxima atenção às pessoas que precisavam dos seus serviços. Deixa, sobretudo o exemplo de amor à cidade que o acolheu. 

Por um grande período ele trabalhou como chefe do Setor de Limpeza Urbana, nas gestões dos ex-prefeitos Pedro Tunu e Vitalino Patriota. Em 2004 com a mudança de gestor ele foi substituído e saiu do quadro de servidores, pois não era funcionário efetivo. Lembro-me de algumas conversas de então com Chico e guardo ainda aquela impressão de seu singular perfil: ele continuava atento e preocupado com a limpeza da cidade, sofria não pelo fato de ter perdido o emprego (até porque já possuía o trabalho na agência da Progresso) mas pela possibilidade de seu sucessor não dar conta do recado e a cidade ficar suja ou perder a fama de uma das mais limpas e belas do Pajeú! 

Esse foi nosso Chico e tudo isso é apenas uma minúscula amostra do grande conterrâneo que perdemos. E que o céu ganhou. O Chico que cuidou da boa viagem de tantas pessoas, por tantos anos, também fez sua viagem para uma outra estação. 

(*O verso que dá título a este texto é da música 'Trem Bala' de Ana Vilela)

Tuparetama, 1ª semana de março de 2017
Tárcio Oliveira

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