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24.7.17

PEDRA RARA


Inesperadamente mas tão coerente quanto poderia ser um ato extremo vindo dele, deixou seu recado doído e jogou-se no vôo solitário – ironicamente solitário apesar de acompanhado ao vivo por vários amigos da rede social – até a dura, indesculpável, derradeira e massacrante realidade do chão de Boa Vista da suja Recife. Um vôo de 10 andares para outra dimensão, a dimensão da saudade e da memória. Um vôo que de certo modo subjetivo percorreu nossas veias congelando o sangue e digitalizou um grito na garganta de cada um de nós “não faça isso!” Quem não desejou num reflexo imediato estirar a mão e socorrê-lo daquele apelo desesperado? 

Não nos cabe julgar o adeus do nosso amigo e conterrâneo. Que autoridade teríamos nós para isso? Também somos parte dessa falange de mentes e corações perturbados que ocupa todos os lugares do planeta e estamos lutando cotidianamente contra nossos monstros com doses nem sempre moderadas ou adequadas de simulações, hipocrisias e liberdades passageiras. 

Nessa babel contemporânea de vozes e sentimentos dissonantes a depressão e outros males da alma assustam. Parece que vivemos numa epidemia e nos faltam preparo, entendimento, boa vontade. Falta sobretudo enfrentamento de parte do poder público. Essa soma de problemas, crises e ausências gera morte. Nesse sentido ressoa com urgente propriedade o apelo final de Elízio para que os gestores públicos dediquem atenção e esforços no tratamento da depressão, com equipamentos como os CAPs. Mas não é sobre isso que quero escrever, não quero buscar nenhuma "utilidade" na morte de quem quer que seja, muito menos na morte de um amigo. 

Enquanto envelheço tenho me esforçado para aprender duas coisas, que são complementares: julgar menos e apreciar mais. Coisas, lugares, pessoas e idéias. Estarei satisfeito e darei por positiva minha existência se conseguir avançar nesse propósito. É por isso que vou ressaltar as singularidades do meu amigo Elízio. 

Tenho a impressão de que ele era tão múltiplo e diverso que cada um de nós que conviveu com ele conheceu apenas uma faceta desse menino traquino. Nunca me foi possível formular algum julgamento coerente de Elízio e dos seus atos porque ele era assim mesmo, uma pessoa que se comportava fora daquilo que burguesamente definimos como bem ou mal, adequado ou inadequado. Sabe aquelas pinturas pós-modernas que olhamos sem entender e que apreciamos sem qualquer critério lógico ou conhecimento estético? Elízio era assim, esse performático pós-moderno. 

Que bom que tivemos a oportunidade de compartilhar da sua amizade e companhia!

Que bom que pudemos rir e chorar com Elízio, abraçar Elízio e em tantos momentos tanta vontade de dar umas boas chineladas nele. É que gente como Elizio é quem dá cor e significado a essa coisa louca chamada vida. É quem nos sacode e nos livra do senso comum, é quem provoca, quem esquenta o tédio morno do cotidiano e cospe no fogo frio da passividade que consome as criaturas “normais”. Pois é,  Renato Russo já sabia do que estamos sentindo quando cantou "É tão estranho /Os bons morrem antes /Me lembro de você/ E de tanta gente que se foi/ Cedo demais!"

Tárcio Oliveira
Tuparetama, julho de 2017.

2 comentários:

Ronaldo Brissant disse...

Muito lindas as suas palavras e a descrição perfeita do nosso amigo.

Anônimo disse...

SEM PALAVRAS,APENAS LÁGRIMAS SAEM DE NESTE MOMENTO...

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