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11.1.18

ESCRAVIZADO DESDE OS 4 ANOS, AGRICULTOR PROCURA FAMILIARES NO PAJEÚ

Fotos do Blog de Cauê Rodrigues

Texto adaptado a partir de matéria escrita por Adryel Nunes e Cauê Rodrigues

O Blog do Cauê Rodrigues publicou esta semana a impressionante história do agricultor José Araújo Alves, de 67 anos, morador da comunidade rural Pajeú Mirim, na zona rural de Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco. José Araújo foi escravizado durante sua infância e adolescência e que seu drama começou após perder-se de seu pai na feira livre de Tabira no ano de 1956.

Conta Seu José que aos 4 anos de idade foi com seu pai para a feira livre de Tabira onde comercializavam galinhas. Em um momento, seu pai - do qual já não consegue lembrar a fisionomia) se distanciou, deixando o pequeno José cuidando das aves. Lembra que nesse momentoum outro garoto aproximou-se e espantou as galinhas que saíram correndo para o mato. Assustado e com medo, José saiu em busca das aves, distanciando-se cada vez mais do seu pai. Apavorado, não soube retornar para o mesmo local, indo para a calçada da igreja, onde ficou até ser pego por um guarda que segundo ele chamava-se Zé Morais.
 
No relato, Seu José narra que ficou um longo período (mais de um mês?) preso no quintal da casa do referido guarda, em Tabira,  sendo tratado como animal, dormindo sob sacos de estopas, levando chuva, sol e frio durante as noites mal dormidas, além de fome, já que era alimentado por migalhas de restos de comida.
 
José era chamado apenas como "Negro" e foi levado em seguida por José de Freitas Pedrosa, cunhado de Zé Morais, para o sitio Cabrito, na zona rural de Ingazeira, onde viveu até cerca de 19 anos como escravo.
 
Somente aos 7 anos de idade calçou sua primeira sandália, uma alpargata feita de pneus, presenteada por uma das irmãs de Zé Pedrosa. Diz que nunca foi a uma sala de aula pois era proibido de sair de casa, obrigado a trabalhar diariamente das 06 da manhã às 6 da tarde, muitas vezes sem se alimentar, perdido nas caatingas cuidando das criações de gado, bodes e ovelhas.  Muitas vezes quando chegava da caatinga, cansado, não se alimentava, sentava num canto de parede e ali pegava no sono, sendo acordado na manhã seguinte para retornar a rotina diária de escravidão.

José tem uma lesão corporal de sua infância escrava. Ocorreu quando cuidava dos animais que acabaram invadindo uma plantação de milho de Zé Pedrosa. Quando o mesmo viu a plantação destruída pelos animais atacou-o com um pedaço de pau dando-lhe diversas pauladas na cabeça. Desnorteado, ficou caído no mato, inconsciente e lesionado. 

Como toda pessoa em situação de escravidão, José pensava em fugir, mas tinha medo de ser pego pelos seus "donos" e também por não ter para onde ir. As lembranças de onde morava com os pais eram  vagas, lembrava-se que moravam próximo a um açude e que próximo a casa dos pais tinha um pé de jaca. Lembra ainda que sua mãe tinha cabelos longos. 

Segundo o relato de Seu José ao Blog do Cauê Rodrigues, sua fuga da escravidão se deu durante uma viagem a pé do sitio Cabrito da Ingazeira até Tabira, quando já tinha 19 anos. Em 1974 casou-se com a senhora Josefa Maria de Lima Alves. Foram os familiares de Dona Josefa que o ajudaram após sua fuga, levando-o para o sitio Pajeú Mirim, em Afogados da Ingazeira. Ali morou primeiramente numa casinha taipa e posteriormente, após aposentado, conseguiu construir uma pequena casa em terras cedidas por uma tia de dona Josefa, onde vive até hoje.

Seu José e Dona Josefa
Indagado por Cauê Rodrigues sobre como fez para obter os documentos civis, Seu José disse que os providenciou depois de adulto. O próprio nome, José Araújo Alves foi criado por ele mesmo já que não sabia seu nome de registro, nem lembra se teve registro quando vivia com os pais. Para ele o único dado certo em seus documentos atuais seria o ano de nascimento, ou seja, 1951.

Com sua esposa Dona Josefa, também chamada de Joana teve seis filhos; Maria Aparecida, Amaury, Almir, Aurivan e Alcione. Tem ainda quatro netos. Seu José tem esperanças de reencontar algum parente. Supõe que os pais decerto já faleceram, porém lembra de ter um casal de irmãos mais velhos.

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