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11.12.18

ARTIGO | Dalila e o direito de nascer

Paula esperou mais de uma hora por atendimento e acabou fazendo o próprio parto | Foto: reprodução

por Willian Novaes, especial para Ponte

Um breve olhar para Paula da Silva que fez o próprio parto no chão 
de um hospital no Rio de Janeiro esperando atendimento 

Dalila nasceu famosa. Seu nascimento foi registrado por várias lentes e em diversos ângulos, com foco e desfoco. Foi destaque no Jornal Nacional. Ganhou muito mais minutos que os nenéns de Sabrina Sato e Isis Valverde. Não vai demorar muito, no entanto, para ser esquecida por todos os curiosos desconhecidos. Pelo Estado, inclusive, que nem mesmo no momento em que Dalila vinha ao mundo se importou. 

Dalila ganhou massagem. Conselhos. Um abraço maternal. Sua mãe teve um parto normal, no sentido técnico da palavra, mas absolutamente desumanizado. Paula da Silva, 29 anos, que estava se tornando mãe naquele instante, teve que fazer tudo sozinha. E não perdeu o foco mesmo com Dalila em seu colo sem chorar. Sem reagir naquele ambiente filmado, televisionado, registrado e humilhado. 
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Não havia médicos na hora. Os salários atrasam, os servidores públicos da saúde têm que esperar, mas a mãe em trabalho de parto, embora tente, não consegue esperar. A mãe de Dalila sentou em cima da sua placenta, em cima do seu próprio sangue, em cima da vergonha, em cima da humilhação, em cima das nossas caras. 

Dalila ainda respira. Dalila chorou. Ninguém sabe se foram depois de minutos, segundos ou de uma eternidade. Os vários ângulos não deixam contar o tempo correto. O tempo lógico. O tempo do século 21. 

Dalila nasceu no Dia Internacional dos Direitos Humanos. Dalila nasceu quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, essa mesma que fala sobre o direito à vida, completou 70 anos de existência. Um dia para Dalilas. Um dia de compaixão e respeito com o outro ser humano.

A sua recepção foi no chão frio de um hospital público carioca. Paula, a mãe de Dalila, esperou por um atendimento que não veio. Levou mais de uma hora essa espera, mas para Paula, que estava em trabalho de parto, não dá pra esperar. 

O tempo dos homens não é o tempo de uma mãe. Abaixou as calças e sozinha deu à luz Dalila. Uma sobrevivente de um Brasil de verdade.

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