14.12.18

CULTURA | Soledad, a mulher que aprendemos a amar, por Urariano Mota


por Urariano Mota

O emocionante espetáculo “Soledad, a terra é fogo sob nossos pés” acaba de ganhar o Prêmio Pernalonga de Teatro na categoria Espetáculo Solo, em Pernambuco. Trata-se de um justo reconhecimento para a melhor representação teatral dos últimos tempos no Recife. A produção, onde se irmanam Malú Bazan, Márcio Santos, Lucas Notaro e Ñasaindy Barrett, filha de Soledad, tem na atriz Hilda Torres um momento raro de reencarnação de uma guerreira. 

Então é tempo de tornar público este breve conhecimento de Soledad Barrett, sobre quem escrevi “Soledad no Recife”, único livro publicado em que ela é a musa inspiradora. Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? 


De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Essa execução coletiva é o ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil não diz tudo. E tudo é, ou quase tudo. 

Entre os assassinados existem pessoas inimagináveis a qualquer escritor de ficção. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um cão danado, a ponto de se urinar e sangrar em público, teve anos depois o irmão, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira Marques, sobre quem retomo como personagem e modelo no romance “A mais longa duração da juventude”, um bravo que entregou a própria vida para não sacrificar a da sua mulher e filhinha bebê. 

E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti; ainda que não fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim… ainda assim o quê? Soledad é a pessoa que aponta para o espião José Anselmo dos Santos e lhe dá a sentença: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha. Aqui e além deste século”. Porque olhem como sofre um coração. 

Para recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem, quero dizer, a face do indivíduo que lhe desferiu o golpe da infâmia. Tive que procurar dele a maior proximidade possível, estudá-lo, procurar entendê-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo é um personagem que não existe igual, na altura de covardia e frieza, em toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com perícia e serenidade. Mas para todos eles há um limite: os espiões não chegam à traição da própria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro filho. 

Agora, “Soledad, a terra é fogo sob nosso pés” é premiado. E vai até o sol de Fortaleza e volta a correr mundo. Saudações fraternas mil e uma vezes. Rever Soledad Barrett interpretada por Hilda Torres, com música e canto da filha Ñasaindy Barrett, que teatro brasileiro teria mais rara e feliz arte? Conheçam o espetáculo, e depois deixem a humanidade se forem capazes.

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